O Veleiro Azul de Chico Chico

(Reproducão| Instagram SESC Pinheiros)

Cresci ouvindo o chamado dos meus tios com a clássica “Tomorrow Is a Long Time”, de Bob Dylan, cantando “O Amanhã É Distante”, na versão de Geraldo Azevedo, e desse hino tomei por lição a passagem do tempo… Costumo aproveitar todos os momentos possíveis, em cada oportunidade que tenho, para viver bons momentos… E assim fiz nessa mais recente visita à paulicéia desvairada, neste começo de julho, com temperatura variando entre mínimas de até 10°C. Pra quem mora sob o calor pulsante, beirando a Linha do Equador, o friozinho é até um charme a mais como atrativo para essa vivência…

A história é longa, baby, mas vou aqui limitar-me ao faro jornalístico que me fez chegar até o SESC Pinheiros, uma hora antes do espetáculo, marcado para às 14h de um domingo, 12.  Sozinha, fui de uber, e enfrentando uma fila de espera na torcida para que alguém desistisse de um ingresso (disputadíssimo, já esgotado). Ou seja, missão quase impossível. Foi exatamente isso que vivi para assistir ao lançamento do espetáculo “Chico Chico canta Luiz Melodia”.

Resolvi tentar a sorte. E ela chegou pra mim. Fiquei na fila de espera e, com jeitinho, consegui comunicar-me e, para minha felicidade, a produção do SESC, com sensibilidade e atenção, me concedeu uma cortesia (eu vindo de longe, como documento, apresentei a carteira da FENAJ, que me abriu as portas…). Naquele dia, enquanto esperava, percebi outras mulheres sozinhas se emanando (na minha mesma faixa etária, conversei com duas delas ao meu lado, e uma avessa ao instagram, conhecia o Maranhão, estava com um ingresso sobrando, o marido também não foi, e claro, ela concedeu o ingresso). O público era bem heterogêneo,  pessoas mais velhas e uma quantidade maior de jovens. Ao final, deu certo pra todo mundo que estava na fila aguardando aquela tão esperada chance. Aquela fila dizia muito antes mesmo do show começar. Chico Chico consegue reunir gerações sem concessões.

Muita expectativa para ouvi-lo, vê-lo no palco. Ainda mais cantando Luiz Melodia… Certamente, essa escolha não foi por acaso. Melodia está entre suas maiores referências musicais desde a infância, ao lado de Jards Macalé e Itamar Assumpção. Imaginem… Eu sei, é inevitável enxergar, em alguns gestos, a herança de Cássia Eller. Mas o que eu vivi, defronte a um artista pronto, cheio de muita personalidade, me deu aquela sensação maravilhosa de que o mundo não está perdido… Nada formatado. Ele tira onda. Real. A liberdade vem brilhando na sua testa… No repertório, já com “Magrelinha”, entre uma entrada e outra no palco, acompanhado de uma banda jazzística (teclado, baixo e bateria) de tirar o fôlego, saltitou e fez o que bem quis com sua voz em ““Vale o Quanto Pesa”, “Pérola Negra”, “Juventude Transviada”, “Farrapo Humano” e tantas mais. Não irei contar tudo aqui…A presença dele renasce da música. Ele prefere o risco. E talvez seja justamente isso que o torne tão magnético.

Fazia tempo que eu não via surgir uma figura tão autêntica na música brasileira. Deu-me até vontade de escrever…Num cenário frequentemente moldado por sussurrantes nepo babies, ele sai rasgando tudo… Como nada é perfeito, ele é vascaíno, tudo bem, vai… Prefere mesmo a imperfeição, com uma jaqueta jeans e chinela de dedo. E eu desabei um mar de lágrimas em “Veleiro Azul”. Pois Chico Chico mexeu comigo de uma maneira muito íntima. Sou fã dessas que gritam mesmo, embora depois dos 51, estou aprendendo a me comportar. Mas ele gritou por mim, ocupou meus silêncios…

Eu vestia uma saia risca de giz com uma camiseta branca e usei o colar de canutilhos com um barquinho dentro de um coração azul, bordado por Itaércio Rocha e Vinicius Azevedo. Pois, quando Chico Chico chamou a plateia para levantar e chegar pertinho do palco, lá fui eu, lógico, e no meio da garotada, eu estiquei o braço, dando o colar pra ele, que prontamente o colocou no pescoço. A emoção foi imensa. Fui às lágrimas, lembrei de tanta coisa… Enfim, ele fez o bis todinho usando o colar no pescoço.

Até fiz um registro mas logo desisti, após o show, peguei o celular só depois e compartilhei a experiência no grupo de WhatsApp dos Alvoradeiros raiz e, para surpresa ainda maior, Vinicius (o próprio) contou que o Chico certamente deveria ter se lembrado do Ita e daquele bordado. Vinicius Azevedo (hoje docente da UFMA) foi professor de Chico Chico quando ele tinha 9 anos e participava da brincadeira do boi que Itaércio fazia todo ano no CEAT, um colégio tradicional localizado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde havia estudado e eles trabalharam lá na época.

Nada mesmo é por acaso.

Ao final do show, fiquei com aquela sensação de me sentir viva! E como os grandes artistas de verdade estão cada vez mais vivos, latentes, atuais.. O tempo, minha gente, é sempre o nosso maior presente… O amanhã é distante? Jamais.

Vanessa Serra é Jornalista. Ludovicense, filha de rosarienses.

Bacharel em Comunicação Social – habilitação Jornalismo, UFMA; com pós-graduação em Jornalismo Cultural, UFMA.

Assessora de Imprensa e Comunicação.

Pesquisadora musical e entusiasta da Cultura do Vinil/DJ.

Antes de dedicar-se ao conteúdo on-line, publicou o Diário de Bordo, na mídia impressa, por 25 anos. Marcou também sua atuação profissional, por 20 anos, desenvolvendo estratégias de produção e roteiro de programas de rádio e TV, com foco em entretenimento.

É criadora do projeto “Vinil & Poesia” com ações diversas, incluindo feira, saraus e produção fonográfica. Lançou a coletânea maranhense Vinil e Poesia – Vol. 1, em mídia física (LP) e plataformas digitais, reconhecida no Prêmio Papete 2021.

Em 2020, idealizou o programa “Alvorada – Paisagens e Memórias Sonoras”, inspirado nas tradições dos folguedos populares e lembranças musicais afetivas. Dentre as realizações, produz bailes e circuitos, a partir do Alvorada que tem formato original e inovador, 100% vinil, apresentado, ao ar livre, nas manhãs de domingo, com transmissão nas redes sociais e na Rádio Timbira FM.

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