Por Vanessa Serra

Fazia tempo que eu não dava umas voltas pela Praia Grande. Naquela quinta-feira, 22, já havia decidido ir ao lançamento do Anuário Guesa Errante, edição compacta do suplemento literário veiculado no Jornal Pequeno, editado por Alberico Carneiro e Josilda Bogéa, do qual já fiz parte da equipe logo no início de sua produção.
Sempre é muito divertido e agradável participar dos eventos que o JP realiza. E essa foi a minha principal motivação. Apesar de quase não ter conseguido sair de casa, por conta do cansaço de um dia todo de trabalho e de umas questões emocionais por qual estava passando… Mas, enfim, já havia combinado com três amigas impagáveis, Ópera Night, Marta Barros e Célia Leite, e um telefonema de incentivo delas me fez tomar a decisão.
Cheguei quase passando das sete da noite, sozinha. Fui ao primeiro ponto de encontro da malandragem sadia presente no Mercado das Tulhas, o Bar do Irmão. Ali, encontrei de cara com a autora de ‘Xiri Meu’, Patativa, a danada da compositora, entusiasta da Turma do Quinto, dos Fuzileiros da Fuzarca, do Bumba-meu-boi de sotaque da Ilha que faz a fama da Madre Deus, e que nem mora mais lá. Ela me deu a fatídica notícia. Os rumores sobre a morte de Gerô.
– Tu tá sabendo?, disse ela, sentada num tamborete do outro lado do balcão, de pernas cruzadas e de cara amarrada.
Nem deu tempo de responder e ela logo saltou: – Gerô está em cima da pedra lá no Socorrão. Tu que é das letras, te apresenta com esse teu celular e liga logo pra alguém pra saber se é verdade.
– Como assim? Gerô? Meu Deus, não pode ser. Esse homem não fazia mal pra ninguém, ‘alugava’ só um pouco de vez em quando – , retruquei, com um sorriso de cumplicidade no canto da boca.
Gerô ficava feliz só com um pouco de atenção. A felicidade dele era a gente parar o que estava fazendo para ouvi-lo em seus repentes, em suas histórias, apressadas, recortadas, suas indignações dentro de um mundo que não cabia em si.
Fiquei chocada. Liguei para o pai de meu filho, perito do Icrim, e tive a confirmação. A primeira informação que tínhamos era de que Gerô havia sido confundido com um bandido, e que teve uma parada cardíaca por conta disso, morreu. Logo pensei. Essa história está mal contada…
Deixei Patativa e segui meu rumo em direção à Casa do Maranhão, local de lançamento do Guesa, passando pelo Beco dos Catraeiros, onde o povo d´A Vida passava o som para a festança mais tarde de todas as quintas. Lá me deparei com Zé Maria, Índio e demais componentes da Casca de Banana. Todos sentados em frente à Cia. Circense com o assunto em pauta. Demorei mais uns instantes para realmente acreditar. Mataram Gerô.
Segui em frente. Na Casa do Maranhão, encontrei minhas amigas. Ouvimos Cesária Évora, tomamos vinho, e assistimos ao recital de poesia com Paulo Melo Sousa, Bioque Mesito entre outros.
No meio daquela gente toda, eu senti a vida. Senti a dor. Senti Gerô. Certamente, ele não seria um daqueles convidados; não estaria sentado à mesa, mas, poderia, quem sabe, ter passado ali no horário marcado do evento para encontrar alguém pela porta para que pudesse oferecer as xérox de seus cordéis por um real que vendia. E dizer: – Olha, eu vou lançar meu CD…
*Crônica publicada no blog Quer Dizer, em 27 de março de 2007.
Em 2007, o poeta, compositor e militante, Jeremias Pereira Silva, o Gerô, faleceu vítima de tortura praticada por policiais militares, em 22 de março; naquele mesmo dia, um pouco antes ele tinha sido visto em uma sessão especial da Assembléia Legislativa para a Campanha “Fraternidade e Amazônia”. O crime contra Gerô culminou para um projeto de lei de autoria da então deputada estadual Helena Heluy que resultou, no ano seguinte, na instituição da data como Dia Estadual de Combate à Tortura.
Vanessa Serra é Jornalista. Ludovicense, filha de rosarienses.









