Inovação

Maranhão amplia mapa da inovação com 471 startups e novos negócios de base tecnológica

Levantamento do Sebrae revela o avanço do empreendedorismo inovador no estado. Da pesquisa científica à gestão pública, empresas maranhenses desenvolvem soluções, conquistam mercados e mostram que a produção de conhecimento também pode movimentar a economia.

A inovação maranhense começa a desenhar um mapa próprio. São 471 startups identificadas no estado, segundo o Sebrae Startups Report Maranhão 2026. Por trás dos números, pesquisadores, empreendedores e profissionais de diferentes áreas encontram na tecnologia uma possibilidade de transformar conhecimento em negócios e responder a problemas cotidianos. O movimento ganha força, mas ainda enfrenta desafios para se consolidar, sobretudo no acesso a investimentos, na expansão para novos mercados e na distribuição das oportunidades para além da capital.

Uma dessas experiências nasceu da inquietação da professora e pesquisadora Áurea Celeste. À frente da Laila Tek, startup maranhense especializada em soluções tecnológicas para a gestão pública, ela encontrou nos dados e na inteligência artificial ferramentas para aperfeiçoar serviços e ampliar o alcance de políticas públicas. A empresa desenvolve tecnologias aplicadas à saúde, à proteção social e aos direitos das mulheres, com atenção especial às populações em situação de vulnerabilidade.

A história da Laila Tek ajuda a compreender uma mudança importante no ambiente empreendedor do Maranhão. A pesquisa científica deixa de ocupar apenas o espaço acadêmico e passa a encontrar aplicações concretas, com potencial para gerar receitas, empregos e benefícios sociais. Entre desenvolver uma boa ideia e transformá-la em um negócio sustentável, porém, existe um percurso que exige investimento, articulação institucional e acesso ao mercado.

A Laila Tek começou a ganhar forma após a aprovação de Áurea Celeste no programa Centelha, iniciativa de incentivo ao empreendedorismo inovador. O projeto inicial propunha uma tecnologia para o rastreamento de diabetes tipo 2 em comunidades rurais. Durante os primeiros testes, uma demanda apresentada pelo município participante mudou os rumos da pesquisa. A solução, inicialmente concentrada em uma doença específica, passou a incorporar indicadores mais amplos da saúde municipal. A experiência revelou possibilidades de utilização dos dados no planejamento, no acompanhamento e na avaliação de políticas públicas.

O projeto ultrapassou as fronteiras maranhenses. Por meio do Seed GOV, programa do governo de Minas Gerais, a startup aperfeiçoou sua tecnologia e ampliou o campo de atuação. A solução foi contratada pelo governo mineiro e passou a atender também demandas relacionadas às políticas sobre drogas e à proteção das mulheres. No Maranhão, a empresa participa do Projeto Cuidar, desenvolvido em parceria com a Fundação Josué Montello, com atenção a pessoas que convivem com doenças crônicas. A perspectiva é ampliar a presença da tecnologia em outros estados brasileiros. “Por trás de cada informação existe uma pessoa, uma história e uma necessidade que precisam ser consideradas”, observa Áurea.

Para a pesquisadora, o crescimento do setor precisa ser acompanhado de condições para que os profissionais formados no Maranhão encontrem oportunidades de empreender e permanecer no estado. Isso significa abrir espaço para experimentação, contratação de soluções e desenvolvimento de empresas capazes de competir em diferentes mercados.“Eu acredito em um Maranhão reconhecido também pela tecnologia que cria e pelo conhecimento que compartilha com o Brasil”, afirma.

Os números do Sebrae ajudam a dimensionar esse movimento. Das 471 startups mapeadas no Maranhão, 294 estão em São Luís, o equivalente a 62,4% do total. A concentração na capital ainda é expressiva, mas o levantamento identifica outros polos de empreendedorismo inovador, especialmente em Imperatriz, com 39 startups, e Balsas, com 22.

A distribuição das empresas por segmento também revela um setor diversificado. Tecnologia da informação representa 14,4% dos negócios, seguida por educação, com 11,7%, e saúde e bem-estar, com 9,1%. Agronegócio e impacto socioambiental integram esse cenário, aproximando a inovação de atividades importantes para a economia maranhense.

A inteligência artificial aparece como a tecnologia mais utilizada, presente em 40,1% das startups. Em seguida estão as tecnologias sustentáveis, com 29,4%, além de recursos de visualização de dados, interfaces de programação e ferramentas de análise. Outro aspecto relevante é o perfil comercial dessas empresas. O modelo B2B, voltado à oferta de produtos e serviços para outras empresas, corresponde a 41,8% dos negócios. Somado ao B2B2C, que envolve empresas intermediárias na relação com o consumidor final, esse mercado integra a estratégia de mais de 70% das startups pesquisadas.

Há, portanto, um campo de possibilidades dentro do próprio estado. O levantamento registra 334,2 mil empresas formais e ativas no Maranhão e aproximadamente 1,07 milhão de pessoas empregadas. Nesse universo, soluções de gestão, automação, logística, saúde, educação e eficiência operacional podem encontrar clientes e contribuir para a competitividade de diferentes setores.

O relatório também apresenta um retrato da diversidade no empreendedorismo tecnológico. Mulheres estão presentes em 125 startups, correspondentes a 26,5% do total. Pessoas negras integram 124 negócios, ou 26,3%. Embora indiquem participação desses grupos, os percentuais também evidenciam a necessidade de ampliar oportunidades de acesso, financiamento e protagonismo.

Para César Guimarães, gerente de Inovação e Tecnologia do Sebrae no Maranhão, uma das mudanças mais significativas está na maneira como a inovação passou a ser compreendida pelo setor produtivo. Antes frequentemente associada a grandes empresas ou a tecnologias complexas, ela ganha espaço como instrumento de competitividade, inclusive entre pequenos negócios.

Essa compreensão acompanha o fortalecimento das conexões entre instituições de ensino, centros de pesquisa, empreendedores e poder público. O avanço, entretanto, não elimina obstáculos conhecidos de quem decide empreender: acesso a capital, formação de equipes qualificadas, conquista dos primeiros clientes e condições para sustentar o crescimento. “Os negócios inovadores são protagonistas desse processo porque transformam conhecimento, criatividade e tecnologia em soluções para problemas reais”, afirma César.

Na avaliação do gerente, a expansão do ecossistema pode abrir mercados, estimular empregos qualificados e alcançar setores estratégicos para o Maranhão, entre eles agronegócio, turismo, saúde, educação, sustentabilidade e serviços.

Programas como Startup Nordeste, Inova Cerrado e Inova Amazônia integram esse esforço. Desenvolvidas pelo Sebrae, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), as iniciativas apoiam negócios inovadores em diferentes etapas de desenvolvimento. O trabalho também contempla o fortalecimento de ecossistemas locais em São Luís, Imperatriz, Balsas e na região dos Cocais, especialmente em Caxias e Timon.

Nesse contexto, a inovação aberta ganha relevância. O modelo aproxima startups, empresas tradicionais e instituições públicas para desenvolver, testar e aplicar soluções em situações reais. Mais do que estimular a criação de novos negócios, a proposta é fazer com que as tecnologias encontrem utilização, clientes e continuidade.

A aproximação entre universidades, setor produtivo e poder público constitui outra frente importante desse processo. A Fapema participa da articulação e do financiamento de iniciativas que procuram converter pesquisa científica em soluções aplicáveis à economia e aos serviços oferecidos à população.

O presidente da Fundação, professor Nordman Wall, destaca programas como Inova Agro, GovIA Maranhão e Deep Tech Catalyst, além de ações como MaraInTech, Tecnova e Centelha. As iniciativas contemplam desde tecnologias para o campo até soluções para a administração pública e o desenvolvimento de empresas de base tecnológica. “O impacto que buscamos é gerar trabalho qualificado, fortalecer a economia e fazer com que o conhecimento produzido aqui ajude a melhorar a vida da população”, afirma.

Nordman chama atenção para um ponto fundamental: uma ideia promissora não se transforma automaticamente em inovação disponível à sociedade. Entre a pesquisa e o mercado, existem etapas de validação, testes, qualificação profissional, financiamento e acompanhamento. Também considera necessário ampliar o diálogo entre pesquisadores e empresas, criando oportunidades para que o conhecimento desenvolvido nas instituições maranhenses encontre aplicação econômica e social dentro do próprio estado.

A questão envolve, ainda, a permanência de talentos. Formar profissionais qualificados é parte do processo. Oferecer condições para que desenvolvam suas carreiras, criem empresas e encontrem mercados no Maranhão é uma etapa igualmente importante.

O levantamento do Sebrae revela um Maranhão que pesquisa, experimenta e empreende. Mas o avanço da inovação não pode ser medido exclusivamente pela quantidade de startups em atividade. A capacidade de manter empresas, conquistar clientes, gerar empregos qualificados e produzir resultados para a sociedade é o que dará consistência a esse crescimento.

O cenário exige continuidade nas políticas de incentivo, aproximação entre instituições e ampliação das oportunidades para o interior. Exige também reconhecer que a inovação não se resume à adoção de novas tecnologias. Ela depende da capacidade de identificar problemas, reunir conhecimentos e encontrar respostas que possam ser efetivamente utilizadas. Nesse percurso, o Sebrae atua no apoio aos empreendedores e na articulação entre instituições, empresas e mercados, contribuindo para o amadurecimento do ambiente de negócios inovadores.

A experiência da Laila Tek sintetiza parte dessa trajetória. Uma pesquisa desenvolvida no Maranhão encontrou aplicação na gestão pública, conquistou espaço em outro estado e continua ampliando suas possibilidades de atuação. O desafio, agora, é fazer com que experiências semelhantes deixem de ser exceção. Afinal, o Maranhão não precisa apenas formar talentos e produzir boas ideias. Precisa criar condições para que ambos encontrem, aqui, espaço para crescer.

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