
Inspirada na convivência de Fauzi Beydoun com Pinduca, o Rei do Carimbó, a música aproxima duas tradições populares e antecipa o novo álbum da banda maranhense, previsto para abril de 2027.
Antes de serem estados distintos, Maranhão e Pará compartilharam uma mesma história administrativa, territorial e cultural. Integraram o antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará, criado no período colonial, quando rios, embarcações e caminhos amazônicos já favoreciam a circulação de pessoas, saberes e expressões culturais. Séculos depois, essa proximidade ganha uma nova tradução musical pelas mãos da Tribo de Jah.
No dia 30 de outubro, a banda maranhense lança “Carimbó – Reggae”, composição de Fauzi Beydoun inspirada em uma viagem pela região amazônica ao lado de Pinduca, um dos maiores representantes da música popular paraense. A faixa abre caminho para o álbum inédito Tribo de Jah – One by One, com lançamento previsto para abril de 2027.
A canção nasceu durante uma travessia de barco entre Macapá e Afuá, município paraense situado no arquipélago do Marajó. Os dois artistas participariam de uma festa popular e foi nesse percurso, entre conversas, paisagens e experiências musicais, que Fauzi encontrou inspiração para aproximar o balanço do reggae jamaicano à pulsação do carimbó.
A mistura não é casual. Maranhão e Pará compartilham muito mais que fronteiras. Há uma Amazônia de águas, tambores, matrizes afro-indígenas, festas populares e repertórios que atravessam gerações. Em São Luís, o reggae ganhou sotaque próprio, consolidou uma cultura de radiolas, clubes e colecionadores e transformou a cidade na Jamaica Brasileira. No Pará, o carimbó se firmou como uma das expressões mais representativas da identidade regional, com suas percussões, danças e musicalidade de forte presença popular.
São linguagens distintas, mas que encontram no ritmo, na dança e na memória coletiva um território comum.
O Magnata encontra o Rei do Carimbó – Conhecido como Magnata do Reggae, Fauzi Beydoun construiu uma trajetória musical marcada pela defesa do reggae roots e pelo diálogo com diferentes vertentes da música brasileira. Na Tribo de Jah, essa aproximação nunca esteve limitada a uma experiência pontual. Xote, baião, embolada, samba e outros gêneros já encontraram espaço nas composições do grupo.
Para Fauzi, o reggae possui uma vocação natural para esses encontros, considerando sua própria formação musical, atravessada pelo mento, rhythm and blues, ska e rocksteady.
“O reggae é uma música que pode se fundir a diversos outros ritmos de forma natural”, explica o músico, ao lembrar que a Tribo sempre procurou incorporar elementos da música brasileira sem abandonar a essência do reggae roots.
A convivência com Pinduca, entretanto, acrescentou outra dimensão a essa experiência. Mais do que uma parceria circunstancial de palco, o encontro permitiu a Fauzi observar de perto a força artística de um músico que ajudou a projetar o carimbó e outros ritmos populares paraenses. “Viajar com ele no mesmo barco de Macapá a Afuá, na Ilha de Marajó, foi simplesmente genial e um aprendizado”, recorda Fauzi.
A admiração vem acompanhada de uma crítica à desigualdade de reconhecimento entre artistas brasileiros. Para o vocalista da Tribo de Jah, Pinduca ocupa um lugar de primeira grandeza na cultura nacional, embora sua contribuição nem sempre tenha recebido a projeção correspondente fora da região Norte. Fauzi compara essa realidade à trajetória de outros nomes da música regional brasileira, como o Gaúcho da Fronteira, e questiona a histórica concentração da indústria fonográfica nos grandes centros do país.
É também essa percepção que atravessa “Carimbó – Reggae”. A música apresenta uma Amazônia que não se resume à paisagem ou ao exotismo frequentemente atribuído à região. É um território de produção artística, circulação de conhecimentos e manifestações populares que dialogam com o Brasil e o mundo. Na composição, a experiência da viagem se transforma em narrativa musical. A festa em Afuá, a presença de Pinduca e o encontro entre músicos dão origem a uma homenagem ao Pará, à cultura de Belém e à riqueza de seus ritmos.
O reggae, que atravessou o Atlântico e encontrou no Maranhão uma de suas mais vigorosas expressões fora da Jamaica, estabelece agora um diálogo explícito com o carimbó, manifestação de profundas raízes amazônicas.
O resultado também reforça uma característica da trajetória da Tribo de Jah que é a capacidade de incorporar referências brasileiras a uma sonoridade reconhecida internacionalmente, sem perder a identidade construída ao longo de quatro décadas.
Na nova faixa, a homenagem se estende aos DJs, personagens fundamentais na circulação do reggae e na formação de seu público. Margalho, Alex Roots e Vitor Pedra são lembrados na composição, consolidando a presença dos discotecários na história e na permanência dessa cultura musical, embora que as mulheres estejam ainda na condição de invisibilidade dentro do espaço midiático.
O lançamento chega em um momento de intensa circulação da banda. Em setembro, a Tribo de Jah participou do programa Bem Brasil e segue com apresentações em diferentes regiões do país. Depois de passar por São Paulo, Ceará, Pará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Pernambuco, o grupo mantém compromissos até dezembro.
Formada em São Luís, a Tribo de Jah ocupa um lugar singular na história do reggae brasileiro. Sua origem está ligada à Escola para Cegos da capital maranhense, onde começou a trajetória de músicos que levariam o nome do Maranhão a palcos internacionais.
Atualmente integrada por Fauzi Beydoun, Pedro Beydoun, Aquiles Rabelo, Netto Enes e João Rodrigues, a banda reúne 41 anos de carreira, 19 álbuns de inéditas, dois DVDs, dois documentários e mais de dois milhões de cópias físicas vendidas. No YouTube, acumula mais de 100 milhões de visualizações.
Entre os registros dessa trajetória estão a participação no Sunsplash Festival, na Jamaica, e a apresentação no Rock in Rio de 2001, além de turnês pelos estados brasileiros e por mais de 50 países. Canções como “Uma Onda que Passou”, “Regueiros Guerreiros” e “Morena Raiz” integram um repertório que atravessou gerações de ouvintes.
Com “Carimbó – Reggae”, a Tribo de Jah acrescenta mais um capítulo a essa história. Desta vez, voltando os ouvidos para a Amazônia e para a vizinhança cultural entre Maranhão e Pará.
Uma aproximação que antecede a formação dos estados, atravessa a história colonial e permanece viva nas manifestações populares. Porque, muito antes das divisões políticas do território, os rios já eram caminhos de encontro. E a música continua fazendo essa travessia.
Serviço
Lançamento: “Carimbó – Reggae” — Tribo de Jah
Data: 30 de outubro de 2026
Plataformas: https://go.nikita.com.br/CarimboReggae_TriboDeJah
Novo álbum: Tribo de Jah – One by One, previsto para abril de 2027.
Próximos shows
- 7 de novembro — Parauapebas (PA)
- 20 de novembro — Parnamirim (RN)
- 28 de novembro — São Paulo (SP)
- 26 de dezembro — Natal (RN)